Editorial

Julho-Agosto | 2026 | Volume 55 - N.º 4

Editorial

A mulher no centro dos cuidados: um olhar transversal a partir da Medicina Geral e Familiar
Catarina Moita

É com particular satisfação que apresentamos esta edição, maioritariamente dedicada à saúde da mulher – um domínio que atravessa, de forma quase quotidiana, as consultas de Medicina Geral e Familiar. Poucas áreas ilustram tão bem a essência da nossa especialidade: a longitudinalidade do cuidado, a abordagem centrada na pessoa e a capacidade de articular prevenção, diagnóstico e tratamento ao longo de todas as fases da vida.

A saúde da mulher exige de nós, médicos de família, uma escuta atenta e uma competência clínica abrangente. Da adolescência à pós-menopausa, somos frequentemente o primeiro – e por vezes o único – ponto de contacto com o sistema de saúde. É por isso que temos a responsabilidade, e o privilégio, de intervir em domínios tão diversos como a saúde sexual, a vigilância da gravidez, o rastreio oncológico ou a gestão de queixas ginecológicas comuns.

A Disfunção Sexual Feminina continua a ser uma área subvalorizada nas nossas consultas, muitas vezes por pudor mútuo entre médico e doente. O artigo de revisão que integra esta edição pretende dotar-nos de ferramentas práticas para abordar o tema com naturalidade e rigor, reconhecendo que a saúde sexual é parte integrante da saúde global – e não um acessório opcional do bem-estar feminino.

Também o rastreio do cancro do colo do útero merece a nossa atenção renovada. Com a evolução das recomendações e a crescente relevância do teste de HPV como método primário, é essencial que o médico de família domine as indicações, periodicidades e algoritmos de seguimento, contribuindo para o cumprimento das metas de eliminação preconizadas pela Organização Mundial da Saúde.

As vaginites, pela sua elevada prevalência, representam um motivo frequente de consulta. Um diagnóstico correto, sustentado numa boa história clínica e no uso criterioso dos meios complementares, evita tratamentos empíricos desnecessários e recorrências evitáveis.

O artigo sobre hemorragia no final da gravidez aborda uma situação clínica de potencial gravidade. Ainda que a orientação hospitalar seja regra, cabe-nos reconhecer precocemente os sinais de alarme, orientar de forma segura e apoiar a grávida e a família num momento de grande vulnerabilidade.

Não descurámos, contudo, outras áreas relevantes do quotidiano da MGF. O impetigo e a urticária são apresentados em artigos práticos, focados no diagnóstico diferencial e nas decisões terapêuticas ao nível dos cuidados de saúde primários. A edição inclui também as mais recentes de guidelines da American Academy of Dermatology sobre o tratamento de acne, uma patologia cujo impacto psicossocial é frequentemente subestimado, sobretudo na adolescência, e cuja abordagem estruturada pode fazer toda a diferença na qualidade de vida dos nossos doentes.

Esperamos que esta edição constitua um instrumento útil de atualização e reflexão, e que reforce, uma vez mais, o papel insubstituível do médico de família na promoção da saúde – da mulher, e de todos aqueles que a nós recorrem. Boas leituras!

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