Editorial
Maio-Junho | 2026 | Volume 55 - N.º 2
Editorial
Da prevenção ao seguimento: o papel decisivo da Medicina Geral e Familiar
Catarina Moita
A Medicina Geral e Familiar continua a ocupar um lugar fulcral no sistema de saúde: é a porta de entrada, o ponto de continuidade e, muitas vezes, o espaço onde se tomam as decisões clínicas que mais influenciam o prognóstico a longo prazo. Numa atualidade em que a complexidade clínica aumenta, em que a população envelhece e em que a multimorbilidade é a regra e não a exceção, o médico de família é chamado a integrar conhecimento, contexto e proximidade.
Esta edição foi pensada como um mapa de trabalho para os Cuidados de Saúde Primários. Começamos pela cardiomiopatia, uma entidade frequentemente diagnosticada tarde, e cuja suspeita precoce depende quase exclusivamente do olhar atento do médico de família. O artigo que aqui publicamos procura sistematizar sinais de alarme, critérios de referenciação e o papel – cada vez mais relevante – dos CSP no seguimento partilhado destes doentes.
Em seguida, abordamos as duas faces da insuficiência cardíaca: a de fração de ejeção preservada, durante muito tempo órfã terapêutica e hoje finalmente com evidência robusta a favor dos inibidores SGLT2; e a de fração de ejeção reduzida, onde a chamada “terapêutica quádrupla” redefiniu o prognóstico e exige dos clínicos uma titulação e ajuste da terapêutica ativas.
O artigo sobre controlo da hipertensão arterial em cuidados agudos aborda uma questão que surge com frequência e que suscita dúvidas: o que fazer perante valores tensionais elevados detetados na consulta aberta/de doença aguda, não tratando apenas valores, mas o doente. A distinção entre urgência, emergência hipertensiva e elevação assintomática é, ainda hoje, uma das fontes mais comuns de sobretratamento.
Dedicamos espaço também ao AVC isquémico recorrente, uma realidade clínica que nos confronta com os limites da prevenção secundária e nos obriga a repensar adesão terapêutica, controlo de fatores de risco e investigação etiológica adicional – sobretudo nos doentes mais jovens ou com eventos criptogénicos.
O rastreio e prevenção do cancro colorretal continua a ser uma área onde os CSP têm maior impacto populacional demonstrado – e, paradoxalmente, onde persistem assimetrias de adesão difíceis de explicar. Revisitamos a evidência atual, as estratégias de captação oportunística e o lugar da colonoscopia versus testes imunoquímicos fecais na nossa prática.
Esta edição, aborda vários aspetos da continuidade de cuidados: entre órgãos, entre níveis de cuidados, entre o episódio agudo e o seguimento ao longo do tempo. É essa continuidade que nenhum algoritmo, nenhuma consulta única e nenhum especialista isolado consegue replicar. É nisto que o médico de família é insubstituível.
Boas leituras e boas consultas!
