Editorial
Setembro-Outubro | 2026 | Volume 55 - N.º 5
Editorial
Da infância à idade adulta: desafios frequentes, decisões informadas
Catarina Moita
A Medicina Geral e Familiar encontra-se numa posição singular no sistema de saúde. É frequentemente o primeiro ponto de contacto dos cidadãos com os cuidados médicos e, por isso, o local onde se concentram dúvidas, sinais e sintomas iniciais, preocupações das famílias e oportunidades privilegiadas de prevenção. A diversidade dos problemas abordados no quotidiano do médico de família exige atualização contínua, espírito crítico e capacidade de integrar a melhor evidência científica no contexto individual de cada doente e família.
É precisamente essa abrangência que esta edição pretende refletir. Uma parte significativa dos artigos centra-se na saúde infantil, área em que os cuidados de saúde primários desempenham um papel determinante. A pieira em crianças continua a ser um motivo frequente de consulta e um desafio diagnóstico, exigindo a diferenciação entre episódios transitórios e manifestações precoces de doença respiratória persistente. Também a ingestão de corpos estranhos permanece uma situação potencialmente grave, na qual o reconhecimento precoce e a adequada referenciação podem ser decisivos para o prognóstico.
A anemia em lactentes e crianças constitui outro tema de enorme relevância clínica pela sua prevalência e pelas potenciais repercussões no crescimento e desenvolvimento. A revisão apresentada nesta edição reforça a importância de uma avaliação sistematizada e de uma abordagem terapêutica atempada e adequada. Na mesma linha, o artigo dedicado ao rastreio e vigilância do desenvolvimento em crianças pequenas relembra o valor das consultas de saúde infantil enquanto momentos privilegiados para a identificação precoce de desvios do desenvolvimento e para a implementação de intervenções que podem alterar significativamente trajetórias futuras.
As doenças agudas da infância mantêm igualmente um peso considerável na atividade assistencial. A revisão sobre o crupe sintetiza a evidência atualmente disponível, oferecendo orientações práticas para a tomada de decisão clínica.
Esta edição estende-se também a problemas clínicos prevalentes em adolescentes e adultos. A enxaqueca continua a ser uma das principais causas de incapacidade em indivíduos jovens e em idade ativa, afetando significativamente a qualidade de vida e a produtividade. A atualização sobre o tratamento da crise aguda procura apoiar o médico de família na seleção das estratégias terapêuticas mais eficazes e seguras para cada contexto clínico. Já o artigo dedicado às infeções da pele e tecidos moles aborda patologias comuns na prática diária, procurando responder a questões frequentes relacionadas com diagnóstico, tratamento e referenciação.
Num domínio menos tradicional, mas cada vez mais relevante, o artigo sobre o transtorno do vício do jogo chama a atenção para uma condição frequentemente subdiagnosticada. A crescente acessibilidade ao jogo online e às apostas digitais torna essencial que os médicos de família reconheçam sinais de alerta, compreendam os critérios diagnósticos e conheçam as opções de tratamento disponíveis, contribuindo para uma abordagem integrada dos problemas de saúde mental e comportamental.
Complementando os artigos de revisão, os conselhos aos doentes e famílias desta edição são dedicados ao atraso no desenvolvimento da fala e da linguagem nas crianças. A literacia em saúde constitui uma ferramenta indispensável para melhores resultados clínicos, e os médicos de família desempenham um papel fundamental na transmissão de informação clara, rigorosa e baseada na evidência.
Esperamos que os artigos apresentados contribuam para a atualização científica e, sobretudo, para uma prática clínica cada vez mais informada, humana e centrada nas necessidades dos doentes e das suas famílias. Boas leituras!
