Atualidades de Saúde


Prémio de 350 mil euros distingue investigação de excelência na área da biomedicina
Fundação Bial premeia investigação sobre relevância do microbioma intestinal na eficácia da imunoterapia contra o cancro
Estudo publicado na Science revela que flora intestinal saudável pode aumentar a eficácia da imunoterapia usada para combater o cancro, enquanto antibióticos podem prejudicar o seu efeito ao reduzirem a microbiota intestinal.
Um consórcio internacional de 48 investigadores, ligados a instituições de França, Suécia e Estados Unidos, venceu a edição de 2025 do Bial Award in Biomedicine, um prémio promovido pela Fundação Bial, no valor de 350 mil euros, que pretende distinguir um trabalho publicado na área da biomedicina de excecional qualidade e relevância científica.
O estudo vencedor, intitulado Gut microbiome influences efficacy of PD-1–based immunotherapy against epithelial tumors, é liderado pelo casal de investigadores Laurence Zitvogel e Guido Kroemer, académicos franceses reconhecidos internacionalmente.
A investigação premiada documenta um dos maiores avanços recentes no tratamento de vários tipos de cancro, uma vez que estabelece que o microbioma intestinal – o conjunto de bactérias que habitam o nosso intestino – tem um efeito determinante na eficácia da imunoterapia.
A imunoterapia revolucionou a oncologia, ao permitir que o sistema imunitário volte a reconhecer e atacar as células tumorais, salvando a vida de muitos doentes que anteriormente não tinham alternativas terapêuticas eficazes. No entanto, mais de metade dos doentes desenvolvem resistência a estas terapias, com recorrência da doença por razões até então pouco compreendidas. O estudo agora distinguido demonstra que o microbioma intestinal desempenha um papel central nessa resistência e que a sua modulação pode melhorar significativamente a resposta aos tratamentos e a sobrevivência dos doentes.
Os autores mostram que o uso de antibióticos pode afetar negativamente a eficácia da imunoterapia, ao reduzir a diversidade da microbiota intestinal. A análise de doentes com cancro revelou que uma maior diversidade bacteriana está associada a melhores resultados clínicos. O estudo identificou ainda espécies específicas de bactérias intestinais consistentemente associadas a uma resposta mais favorável ao tratamento, estabelecendo ligações causais através de experiências em modelos animais.
O estudo foi publicado na revista Science em janeiro de 2018 e conta já com mais de 5800 citações científicas, refletindo o seu impacto profundo e duradouro na investigação biomédica.
Segundo o júri do Bial Award in Biomedicine, este trabalho representa um verdadeiro tour de force científico, ao integrar dados de investigação básica, estudos em modelos animais e observações clínicas em doentes, sublinhando as ligações profundas entre o sistema imunitário, o organismo humano e os microrganismos que nele vivem. Para além do seu valor conceptual, o estudo sugere modificações concretas e imediatamente aplicáveis à prática clínica, nomeadamente o uso criterioso de antibióticos em pacientes oncológicos submetidos à imunoterapia.
Para Ralph Adolphs, presidente do júri, «ao revelar o papel central do microbioma intestinal na resposta à imunoterapia, este estudo redefine a forma como pensamos os mecanismos de resistência ao tratamento do cancro. Trata-se de um avanço científico notável, que abre novas vias terapêuticas e ilustra de forma exemplar o poder transformador da investigação biomédica de excelência».
A edição de 2025 do Bial Award in Biomedicine contou com 58 trabalhos nomeados, provenientes de 18 países, abrangendo áreas como o cancro, as doenças infeciosas e as doenças neurodegenerativas. As edições anteriores distinguiram investigações que viriam a ser reconhecidas com alguns dos mais prestigiados prémios científicos internacionais. De salientar que dois dos cientistas vencedores da edição do Bial Award in Biomedicine 2021, Katalin Karikó e Drew Weissman, foram distinguidos com o Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina 2023, pelas suas descobertas que permitiram o desenvolvimento de vacinas eficazes baseadas na tecnologia de mRNA para prevenir a COVID-19.
Com esta distinção, o Bial Award in Biomedicine volta a sublinhar a importância central da investigação em cancro e imunologia, reconhecendo simultaneamente a complexidade dos mecanismos biológicos envolvidos e a confiança de que a biomedicina moderna é capaz de os desvendar, contribuindo de forma decisiva para a melhoria da saúde e do bem-estar humanos.
Autores do trabalho premiado e suas instituições na altura da publicação do artigo:
Bertrand Routy,1,2,3 Emmanuelle Le Chatelier,4 Lisa Derosa,1,2,3 Connie P. M. Duong,1,2,5 Maryam Tidjani Alou,1,2,3 Romain Daillère,1,2,3 Aurélie Fluckiger,1,2,5 Meriem Messaoudene,1,2 Conrad Rauber,1,2,3 Maria P. Roberti,1,2,5 Marine Fidelle,1,3,5 Caroline Flament,1,2,5 Vichnou Poirier-Colame,1,2,5 Paule Opolon,6 Christophe Klein,7 Kristina Iribarren,8,9,10,11,12 Laura Mondragón,8,9,10,11,12 Nicolas Jacquelot,1,2,3 Bo Qu,1,2,3 Gladys Ferrere,1,2,3 Céline Clémenson,1,13 Laura Mezquita,1,14 Jordi Remon Masip,1,14 Charles Naltet,15 Solenn Brosseau,15 Coureche Kaderbhai,16 Corentin Richard,16 Hira Rizvi,17 Florence Levenez,4 Nathalie Galleron,4 Benoit Quinquis,4 Nicolas Pons,4 Bernhard Ryffel,18 Véronique Minard-Colin,1,19 Patrick Gonin,1,20 Jean-Charles Soria,1,14 Eric Deutsch,1,13 Yohann Loriot,1,3,14 François Ghiringhelli,16 Gérard Zalcman,15 François Goldwasser,9,21,22 Bernard Escudier,1,14,23 Matthew D. Hellmann,24,25 Alexander Eggermont,1,2,14 Didier Raoult,26 Laurence Albiges,1,3,14 Guido Kroemer,8,9,10,11,12,27,28* Laurence Zitvogel1,2,3,5*
1Gustave Roussy Cancer Campus (GRCC), Villejuif, France.
2Institut National de la Santé et de la Recherche Medicale (INSERM) U1015 and Equipe Labellisée–Ligue Nationale contre le Cancer, Villejuif, France.
3Univ. Paris-Sud, Université Paris-Saclay, Gustave Roussy, Villejuif, France.
4MGP MetaGénoPolis, INRA, Université Paris-Saclay, Jouy-en-Josas, France.
5Center of Clinical Investigations in Biotherapies of Cancer (CICBT) 1428, Villejuif, France.
6Gustave Roussy, Laboratoire de Pathologie Expérimentale, 94800 Villejuif, France.
7Centre de Recherche des Cordeliers, INSERM, Université Paris Descartes, Sorbonne Paris Cité, UMRS 1138, Université Pierre et Marie Curie Université Paris 06, Sorbonne Universités, Paris, France.
8Metabolomics and Cell Biology Platforms, GRCC, Villejuif, France.
9Paris Descartes University, Sorbonne Paris Cité, Paris, France.
10Equipe 11 Labellisée–Ligue Nationale contre le Cancer, Centre de Recherche des Cordeliers, Paris, France.
11INSERM U1138, Paris, France.
12Université Pierre et Marie Curie, Paris, France.
13Department of Radiation Oncology, INSERM U1030, and Molecular Radiotherapy, Gustave Roussy, Université Paris-Saclay, F-94805 Villejuif, France.
14Department of Medical Oncology, Gustave Roussy, Villejuif, France.
15Thoracic Oncology Department–CIC1425/CLIP2 Paris-Nord, Hospital Bichat-Claude Bernard, AP-HP, Université Paris-Diderot, Paris, France.
16Department of Medical Oncology, Center GF Leclerc, Dijon, France.
17Druckenmiller Center for Lung Cancer Research, Memorial Sloan Kettering Cancer Center, New York, NY, USA.
18Molecular Immunology and Embryology, UMR 7355, CNRS, University of Orleans, Orléans, France.
19Department of Pediatric Oncology, GRCC, Villejuif, France.
20Preclinical Research Platform, GRCC, Villejuif, France.
21Department of Medical Oncology, Cochin Hospital, Assistance Publique–Hôpitaux de Paris, Paris, France.
22Immunomodulatory Therapies Multidisciplinary Study Group (CERTIM), Paris, France.
23INSERM U981, GRCC, Villejuif, France.
24Department of Medicine, Thoracic Oncology Service, Memorial Sloan Kettering Cancer Center, New York, NY, USA.
25Department of Medicine, Weill Cornell Medical College, New York, NY, USA.
26URMITE, Aix Marseille Université, UM63, CNRS 7278, IRD 198, INSERM 1095, IHU–Méditerranée Infection, 13005 Marseille, France.
27Pôle de Biologie, Hôpital Européen Georges Pompidou, Assistance Publique–Hôpitaux de Paris, Paris, France.
28Department of Women’s and Children’s Health, Karolinska University Hospital, 17176 Stockholm, Sweden.
*Corresponding author.
Sobre a Fundação Bial
A Fundação Bial foi criada em 1994 pela Bial, em conjunto com o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, com a missão de incentivar o estudo científico do ser humano, tanto do ponto de vista físico como espiritual. É gerida por representantes das duas instituições fundadoras.
Entre as suas atividades destaca-se a atribuição de Prémios científicos no âmbito da investigação em ciências da saúde, nomeadamente o Prémio Bial de Medicina Clínica, o Bial Award in Biomedicine, um dos maiores prémios europeus na área da saúde, e o Prémio Maria de Sousa, em parceria com a Ordem dos Médicos.
A Fundação Bial promove igualmente um programa de Apoios a Projetos de Investigação Científica, orientado para o estudo neurofisiológico e mental do ser humano, nas áreas da Psicofisiologia e da Parapsicologia; bem como as Bolsas de Doutoramento Nuno Grande, destinadas a médicos doutorandos em Ciências Fundamentais da Saúde.
Desde 1996, a Fundação organiza, de dois em dois anos, os Simpósios “Aquém e Além do Cérebro”, reunindo os mais relevantes nomes nas áreas das Neurociências e da Parapsicologia e os investigadores apoiados.
Instituição sem fins lucrativos e de utilidade pública, a Fundação conta com o Alto Patrocínio de Sua Excelência o Presidente da República, e os patrocínios do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas e da Ordem dos Médicos.
