Atualidades de Saúde





Atribuído pela Ordem dos Médicos e pela Fundação Bial
Prémio Maria de Sousa apoia cinco jovens cientistas na procura de novas respostas para grandes desafios da saúde
Projetos sobre feridas infetadas, cancro do pulmão, doença de Alzheimer, artrite autoimune e mecanismos cerebrais da aprendizagem recebem um total de 150 mil euros.
Lisboa, 6 de novembro de 2026 – Cinco jovens investigadores portugueses vão receber até 30 mil euros cada para desenvolver projetos inovadores nas áreas das infeções, cancro, doenças neurodegenerativas, doenças autoimunes e neurociências. Luísa Fialho, Sara Isabel Fernandes, Tatiana Morais, Simão Teixeira e Ana Verónica Domingues são os vencedores da 6.ª edição do Prémio Maria de Sousa, atribuído pela Ordem dos Médicos e pela Fundação Bial.
Nesta edição do prémio, os projetos galardoados incluem a realização de estágios em centros de investigação de referência, localizados na Alemanha, Espanha, França e Portugal, promovendo o desenvolvimento de novas competências e colaborações científicas.
«O Prémio Maria de Sousa nasceu para perpetuar o nome de uma cientista excecional, mas também para dar continuidade àquilo que Maria de Sousa defendia: curiosidade, rigor e uma enorme confiança nas novas gerações de investigadores. Ao apoiar estes cinco jovens cientistas numa fase determinante dos seus percursos, queremos dar-lhes condições para desenvolverem ideias ambiciosas, estabelecerem novas colaborações e continuarem a fazer crescer a ciência portuguesa», afirma Luís Portela, Presidente da Fundação Bial.
Cinco projetos com potencial para mudar vidas
Luísa Fialho, investigadora do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto, foi distinguida pelo projeto “3DWoundControl – Estruturas 3D bioativas para a monitorização e controlo de feridas infetadas”, que incluirá um estágio no Bioengineering Institute of Technology (BIT) da Universidad Internacional de Cataluña, em Espanha.
A crescente resistência aos antibióticos compromete a eficácia dos tratamentos convencionais e aumenta o risco de complicações em feridas cutâneas, dificultando a cicatrização. Para responder a este desafio, o projeto pretende desenvolver um penso inteligente que combina a deteção visual de infeções com a libertação controlada de compostos antimicrobianos e regeneradores. Uma das suas camadas muda de cor na presença de infeção, enquanto a outra liberta substâncias que combatem as bactérias e promovem a regeneração dos tecidos.
Ao aliar a monitorização da infeção à ação antibacteriana e regeneradora, o projeto poderá contribuir para uma nova geração de pensos capazes de prevenir e tratar infeções, acelerar a cicatrização e reduzir a dependência de antibióticos convencionais.
Sara Isabel Fernandes, investigadora do Vlaams Instituut voor Biotechnologie (VIB), na Bélgica, foi distinguida pelo projeto “Metabolismo de lípidos produzidos por células alveolares tipo 2 como alvo terapêutico em cancro do pulmão de não pequenas células”, que procura identificar novas formas de travar o crescimento do tipo mais frequente de cancro do pulmão.
O cancro do pulmão de não pequenas células representa cerca de 85% dos casos de cancro do pulmão, que continua a ser uma das principais causas de morte por cancro a nível mundial. No centro desta investigação estão as células alveolares tipo 2 (AT2), essenciais para o normal funcionamento do pulmão. O grupo de trabalho da investigadora demonstrou que metástases pulmonares do cancro da mama recrutam e reprogramam células AT2 para fornecer lípidos que favorecem o crescimento tumoral e que o bloqueio deste processo reduz o crescimento de metástases pulmonares em modelos pré-clínicos. O projeto pretende agora perceber se o mesmo mecanismo ocorre no cancro do pulmão primário, através da análise de amostras de doentes e de estudos em modelos pré-clínicos, procurando identificar novas estratégias para travar a progressão da doença.
O trabalho inclui um estágio no Porto, no i3S, no Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP) e no Centro Hospitalar Universitário de São João (CHUSJ), e procurará contribuir para identificar novos alvos terapêuticos para o cancro do pulmão. A investigadora pretende regressar a Portugal e criar um grupo de investigação independente dedicado ao metabolismo do cancro.
Tatiana Morais, investigadora do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS) da Universidade do Minho, foi distinguida pelo projeto “Modulação comportamental e cognitiva na doença de Alzheimer pelo metabolismo lipídico astrocitário”, que procura compreender como as alterações no metabolismo dos lípidos dos astrócitos contribuem para a progressão da doença de Alzheimer, nomeadamente para a atividade neuronal excessiva, as crises epiléticas e o declínio cognitivo.
Os astrócitos são células cerebrais que asseguram o suporte metabólico dos neurónios e regulam a comunicação entre eles. Na doença de Alzheimer, alterações no seu funcionamento, incluindo na produção e no transporte de lípidos, poderão contribuir para alterações da atividade neuronal e para o declínio cognitivo característicos da doença. O projeto vai estudar duas vias envolvidas nestes processos, procurando compreender o seu papel nesta doença e perceber de que forma alterações na sua atividade podem influenciar a progressão da doença.
A investigação inclui um estágio no Institute for Advanced Study do University Hospital rechts der Isar, da Technical University of Munich, na Alemanha, e pretende identificar alterações lipídicas e moleculares que possam constituir novos alvos terapêuticos para a doença de Alzheimer.
Simão Teixeira, investigador do Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia (INL), em Braga, foi distinguido pelo projeto “Mech-Arthur: dissecando a mecanotransdução mediada por PIEZO1 na artrite autoimune”, que procura compreender como as forças físicas nas articulações influenciam as células do sistema imunitário envolvidas nesta doença.
A artrite autoimune é uma doença inflamatória crónica que provoca a destruição progressiva das articulações. O projeto centra-se nos linfócitos T, células fundamentais na resposta imunitária, e no canal que permite às células responder a estímulos mecânicos, como alterações de pressão ou rigidez. Para estudar este mecanismo, o investigador vai desenvolver nanopartículas, designadas “nanointerruptores”, que permitem controlar a atividade através de campos magnéticos e estudar o seu funcionamento em condições semelhantes às observadas em articulações afetadas pela doença.
A investigação inclui um estágio no Singular Centre for Research in Molecular Medicine and Chronic Diseases (CiMUS) da Universidade de Santiago de Compostela, em Espanha, e pretende contribuir para o desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas para a artrite autoimune e outras doenças autoimunes.
Ana Verónica Domingues, investigadora do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS) da Universidade do Minho, foi distinguida pelo projeto “Modulação dos circuitos da área tegmental ventral pelo sistema opioide endógeno na aprendizagem associativa”, que procura compreender como diferentes substâncias produzidas pelo cérebro influenciam a aprendizagem e o comportamento.
A aprendizagem associativa é o processo através do qual o cérebro aprende que determinados sinais do ambiente anunciam algo agradável ou desagradável. Neste processo, destaca-se a área tegmental ventral (VTA), uma região cerebral importante para a aprendizagem e a motivação, onde os neurónios comunicam através de substâncias como a dopamina e a dinorfina, um opioide produzido naturalmente pelo cérebro. Partindo da observação de que a dinorfina é libertada nesta região durante a aprendizagem, o projeto vai estudar a origem destes sinais e de que forma influenciam a atividade neuronal e a aprendizagem associada a experiências positivas e negativas.
A investigação inclui um estágio na University of Côte d’Azur, em França, e pretende esclarecer o papel da dinorfina na forma como o cérebro aprende e adapta o comportamento perante experiências positivas e negativas.
Investir na investigação é investir na saúde do futuro
«Investir nos jovens investigadores é investir no futuro da medicina e da saúde em Portugal. Iniciativas como o Prémio Maria de Sousa são fundamentais para reconhecer o talento, o rigor e a dedicação de uma nova geração de cientistas, criando oportunidades para que desenvolvam projetos ambiciosos, em colaboração com centros de excelência, e contribuam para melhorar a vida das pessoas», afirma Carlos Cortes, Bastonário da Ordem dos Médicos.
A cerimónia de entrega da 6.ª edição do Prémio Maria de Sousa decorre hoje, às 15h30, no Auditório da Ordem dos Médicos em Lisboa, e contará com a presença da Secretária de Estado da Ciência e Inovação, Helena Canhão, bem como de Luís Ferreira, Presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, e de Carlos Cortes, Bastonário da Ordem dos Médicos.
Os trabalhos vencedores foram selecionados por um Júri presidido pelo neurocientista Rui Costa, presidente e diretor executivo do Allen Institute, nos Estados Unidos, que também estará presente na cerimónia de entrega.
Sobre a Fundação Bial
A Fundação Bial foi criada em 1994 pela Bial, em conjunto com o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, com a missão de incentivar o estudo científico do ser humano, do ponto de vista físico e espiritual. É gerida por representantes das duas instituições fundadoras.
Entre as suas atividades destaca-se a atribuição de Prémios científicos no âmbito da investigação em ciências da saúde, nomeadamente o Prémio Bial de Medicina Clínica, o Bial Award in Biomedicine, um dos maiores prémios europeus na área da saúde, e o Prémio Maria de Sousa, em parceria com a Ordem dos Médicos.
A Fundação Bial promove igualmente um programa de Apoios a Projetos de Investigação Científica, orientado para o estudo neurofisiológico e mental do ser humano, nas áreas da Psicofisiologia e da Parapsicologia, bem como as Bolsas de Doutoramento Nuno Grande, destinadas a médicos doutorandos em Ciências Fundamentais da Saúde.
Desde 1996, a Fundação organiza, de dois em dois anos, os Simpósios “Aquém e Além do Cérebro”, reunindo os mais relevantes nomes nas áreas das Neurociências e da Parapsicologia e os investigadores apoiados.
Instituição sem fins lucrativos e de utilidade pública, condecorada como Membro Honorário da Ordem do Mérito, a Fundação conta com o Alto Patrocínio de Sua Excelência o Presidente da República para a generalidade das suas iniciativas, bem como com os patrocínios do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas e da Ordem dos Médicos.
